Dados Mandatórios

Lista mínima pré-prompt: idade, sexo biológico, naturalidade, procedência, profissão, história familiar, exposições.

Verbete da wiki do curso Medicina com IA · atualizado em

Em uma frase

Dados mandatórios são o conjunto mínimo de informações que precisam estar organizadas antes da formulação de qualquer prompt diagnóstico — semiologia clássica torna-se requisito operacional na era da IA (Carneiro MS e Massucatti Neto A, 2026). Não é opcional, não depende do caso, não varia com o tipo de IA utilizada: sem esses dados, a IA responderá com pressuposições estatísticas globais que quase nunca servem para o paciente real à sua frente.

A tese — a semiologia clássica vira protocolo operacional

A IA não inventou novos padrões de coleta de dados. Ela apenas tornou a omissão de etapas operacionalmente dispendiosa.

O médico que sempre fez anamnese completa — incluindo procedência, profissão, exposições, história familiar e antecedentes pessoais — fornece à IA um insumo naturalmente rico e obtém respostas proporcionais a essa qualidade. O médico que adota anamnese abreviada, focada apenas no sintoma principal, recebe respostas igualmente restritas.

O desconforto com o desempenho da IA não decorre da ferramenta, mas do hábito prévio que ela apenas torna mais evidente (Aula 10).

Os sete dados mandatórios

A lista é curta, conhecida e sistematicamente esquecida na prática ambulatorial apressada:

1. Idade

Parece óbvio — é justamente o que mais se esquece. Um mesmo quadro clínico em criança de 3 anos, adulto de 30 e idoso de 80 produz hipóteses radicalmente diferentes:

  • Dor torácica em adolescente ≠ dor torácica em septuagenário.
  • Sangramento vaginal em idade fértil ≠ sangramento na pós-menopausa.

A idade reorganiza todo o diagnóstico diferencial.

2. Sexo biológico

Esquecer não é neutro. Doenças ligadas ao cromossomo X, prevalências hormonais, padrões epidemiológicos variam com sexo biológico.

Em contextos em que identidade de gênero é relevante, ela deve ser registrada adicionalmente — sem substituir a informação do sexo biológico, que tem valor epidemiológico e fisiopatológico próprio.

3. Naturalidade

Onde o paciente nasceu. Dado que médicos brasileiros coletam por hábito, mas muitas vezes sem peso diagnóstico — e é fundamental.

Geografia das doenças:

  • Doença de Chagas
  • Esquistossomose
  • Leishmaniose visceral
  • Malária
  • Febre amarela
  • Febre maculosa
  • Doenças fúngicas sistêmicas regionais

Exposições de infância podem se manifestar décadas depois. Paciente nascido em zona endêmica de Chagas na década de 1960 e atendido hoje em São Paulo por quadro cardíaco — a história epidemiológica precisa estar no prompt.

4. Procedência

Onde o paciente mora e onde morou. Não apenas a cidade atual — o histórico de deslocamentos relevantes:

  • Mudanças recentes.
  • Viagens prolongadas.
  • Residência em outras regiões.

A procedência complementa a naturalidade e muitas vezes muda o peso das hipóteses.

5. Profissão atual e histórico ocupacional

Talvez o dado mais esquecido e um dos mais poderosos. Exemplos:

  • Silicose em operário de pedreira.
  • Saturnismo em ex-funcionário de fábrica de baterias.
  • Pneumonite por hipersensibilidade em criador de pombos.
  • Exposição a solventes em pintor.
  • Asma ocupacional em padeiro.
  • Dermatite em cabeleireiro.

A profissão atual conta parte da história. A profissão prévia — muitas vezes esquecida pelo próprio paciente — conta a outra:

"Um contador hoje pode ter trabalhado dez anos numa indústria química na juventude, e é esse dado que pode fechar um diagnóstico reumatológico ou oncológico décadas depois" (Aula 10).

6. História familiar relevante

Não no sentido genérico de "ter caso na família" — no sentido organizado:

  • Doenças em parentes de primeiro grau.
  • Mortes precoces e suas causas.
  • Consanguinidade parental.
  • Padrões de herança aparentes.

Exemplos:

  • Morte súbita de irmão jovem → sinal de alerta para canalopatias.
  • Mãe com câncer de mama aos 45 → forte indício para mutação em BRCA.

A IA, quando abastecida com os dados corretos, irá buscar essas associações.

7. Exposições relevantes (inclusive as habituais)

O que o paciente faz e a que se expõe regularmente:

  • Viagens recentes.
  • Contato com animais.
  • Exposição a água ou solo (atividades rurais ou de lazer).
  • Contatos sexuais.
  • Uso de substâncias lícitas e ilícitas.
  • Medicações em uso e recentemente descontinuadas.
  • Vacinação.
  • Transfusões.
  • Internações prévias.

Cada item reorganiza possibilidades etiológicas.

A armadilha do "diferente vs. habitual"

Na anamnese, há armadilha recorrente: perguntar só o que aconteceu de diferente. Às vezes o dado decisivo não é o evento excepcional, mas o hábito — aquilo que o paciente faz toda semana, todo dia, sem sequer achar que "conta".

Uma pergunta simples muda o jogo:

Além do que mudou, o que se repete?

Exposição recorrente é exposição real, e muitas vezes é ela que explica o caso.

Extensões dependentes do quadro

A lista de 7 é o mínimo — linha de base. Dependendo do caso, é necessário incluir:

QuadroDado adicional
Mulher em idade fértilCiclo menstrual, status gestacional
ImunossuprimidoStatus imunológico, tempo de imunossupressão
Caso digestivoDieta detalhada
Caso neurológicoPadrão de sono

A lista mandatória define a linha de base. Sem o mínimo, o prompt fica incompleto e o resultado da IA ajuda muito pouco.

Por que essa lista protege contra erro em escala

O maior risco da IA na medicina não está nos casos complexos — está nos casos aparentemente simples, onde o médico reduz a vigilância clínica e adere precocemente à primeira sugestão plausível.

A lista de dados mandatórios é uma das principais proteções contra esse risco.

Exemplo: criança com dor abdominal parece caso simples quando a IA recebe apenas idade e queixa. Muda de figura quando se adiciona contexto:

  • Nasceu no interior do Piauí.
  • Mudou-se para Goiás há 6 meses.
  • Mãe com doença celíaca.
  • Comeu peixe de rio cru na semana anterior.

Para a mesma criança, dados basais diferentes:

  • Reorganizam o diagnóstico diferencial.
  • Mudam o tipo de risco considerado.
  • Alteram o plano de cuidado.

"A IA só pode raciocinar sobre o que está na mesa. Quando o médico se disciplina a entregar todos os dados mandatórios, mesmo em casos que parecem simples, ele reintroduz a complexidade necessária para que a IA não responda no piloto automático" (Aula 10).

A relação com GIGO

Dados mandatórios são a operacionalização do princípio GIGO no diagnóstico assistido por IA. Não é regra nova:

Não é a IA que torna a clínica melhor; é a clínica bem-feita que torna a IA útil, porque é ela que coloca o essencial no prompt (Aula 10).

A IA atua como amplificador da competência prévia. Potencializa o conhecimento existente, mas não supre a ausência de base técnica do operador.

O custo da disciplina

Há resistência comum: "isso não vai me fazer perder tempo?".

A disciplina, uma vez incorporada à rotina, não demanda tempo adicional. Análogo à condução segura de um veículo: atenção aos retrovisores parece custosa ao iniciante, torna-se automática com o tempo. O motorista prudente chega com a mesma celeridade, mas com taxa de sinistralidade drasticamente menor.

O médico que organiza dados antes do prompt:

  • Pode parecer mais lento na inserção de dados.
  • Ganha eficiência na etapa posterior: resposta de alta qualidade reduz investigações errôneas, exames desnecessários, revisões de conduta.
  • Benefício líquido: economia de tempo fundamentada na precisão.

A operacionalização — checklist pré-prompt

DadoOnde aparece no prompt
Idade"[idade em anos]"
Sexo biológico"[masculino / feminino]"
Naturalidade"[cidade e estado de nascimento]"
Procedência"[onde mora atualmente e onde morou antes, com duração aproximada]"
Profissão atual"[profissão atual]"
Histórico ocupacional"[profissões prévias relevantes]"
História familiar"[doenças em parentes 1º grau, mortes precoces e causas]"
Exposições"[viagens, animais, substâncias, medicações em uso]"

Conexões

  • Aula 10 — apostila onde o conceito é apresentado (Seção 4.1).
  • GIGO — princípio que sustenta a regra.
  • Taxonomia de consenso — segunda ferramenta pré-prompt.
  • VITAMIN-CDE — estrutura do diagnóstico diferencial após os dados.
  • Protocolo PCTR — estrutura geral do prompt em que os dados se inserem.
  • Médico Curador — perfil que opera com disciplina pré-prompt.
  • IA como método propedêutico — enquadramento da disciplina.
  • Higiene de contexto — prática complementar.
  • IA como espelho — tese que sustenta a importância dos dados de entrada.
  • Momento do retorno — uso particularmente crítico dos dados na refutação.
  • LGPD — limite que define o que NÃO entra no prompt (anonimização).
  • Resolução CFM nº 2.454/2026 — exige documentação do uso.